lábios em lava - ondjaki
deus, tu perdoar-me-ias.
saberias compreender o estrondoso frenesi dos meus dedos, a vulcânica e contida necessidade dos meus lábios, o calor e, oh meu deus, o odor. a pluralidade do odor, a resistência da penugem, o suor, o suor, a mão indelicada, incontida, desarrumada, amarga.
a mão amarga movendo-se no antro, no pântano do meu ser. testemunha — a noite: palco de avessos, de pernas e proscénios abertos, o espetáculo vivo, do viveiro de intensos fantasmas. atiro-me do alto da minha fé, desfazendo o corpo em pó: pó solto, pó vivo, pó longínquo a ti, senhor. porque com gigantesco prazer eu peco! e peco pensando ressuscitar.
porque eu, senhor, morro num prazer de mãos, a língua procurando o que não pode tocar, a saliva escorrendo por gémeos orifícios; e gemo, no pecado da manual fricção, gemo, grito inaudivelmente não para te contrariar, gemo, mas para te compreender; incorporar. cada poro meu é um ponto de interlocução aberto — entupido de suor e magia, luxúria e saliva.
as mãos, as mãos imparáveis percorrendo-me a pele, os antros, contrariando penugens, penetrando-me selvagens como se não fosse eu dona de mim, ou delas. as mãos deixando por elas escorrer babas que eu desconheci de início, alimentei depois e, mais tarde, busquei em ritmo e repetição sabida. as babas, as transparentes lamas, escorrendo abusivamente da alma, deixando-me à mercê de mim e da noite, escorrendo, contagiando virgens orifícios, facilitando-me percursos apertados, proibidos, senhor. porque eu tenho procurado estar, tenho estado, nos percursos proibidos e apertados; assim peco, senhor: com música escorregadia na alma, com salivas opacas, abundantes, demoníacas, percorrendo-me as entranhas, entranhando-me odores, acalentando-me a boca, a nuca, as axilas, as virilhas, os
pés, os olhos e as penugens, as penugens, senhor, nos braços arrumadas, nas coxas discretas, nas axilas escondidas, nas pernas ignoradas, nos lóbulos sentidas, nas virilhas…, nas virilhas, senhor, as penugens provocantes..., inicialmente protetoras, logo depois úmidas, de seguida penugens cambaleantes e, cheiros mil, totalmente ébrias, maleáveis, prostituídas a mim, às mãos, aos dedos delicados de dia, fálicos de noite, incisivos de madrugada. meio da noite.
meio da minha prazerosa perdição; premonição; e, de certo modo, juro-te, senhor, salvação. de repente, o essencial faz mais sentido, corporalmente: a tua luz parece-me a mesma, mas mais nítida; o meu corpo repousa, mas flutuando; as nuvens existem no céu, mas mais perto; o vento nada diz, mas posso ouvi-lo declamar. os suores se extinguem num horizontal estremecimento de mim, das carnes, dos lábios em lava. em vez de acordar, adormeço; o meu corpo acorda do transe, adormecendo. os dedos retiram-se, a paz é outra.
os dedos perdem acutilância, fingimento, rapidez, marcial sabedoria. ganham dimensão real: dedos somente. e tu, senhor, não dizes nada. repouso nua, coberta de dúvidas e penugens arrumadas. Sinto os braços calmos. arrumo o cabelo que me apruma a alma. é o mundo uma vela ardente e solitária sem medo de se consumir. tu não dizes nada. talvez não tenhas mais para dar às minhas mãos embriagadas.
as mãos, as mãos, senhor: adormecendo primeiro que eu.