24 de setembro de 2020

 meu sangue vai indo pra terra,

interação que alimenta o espírito.

meu corpo, cansado, como que de uma longa viagem,

encontra no escuro um refúgio

um colo de útero,

um elixir;


os dias me falam através das estrelas -

sirvo ao Outro, sentindo a raiz, debaixo das minhas pernas, 

estircar-se - 

figurativamente e sempre


honrando as divindades que aqui habitam.


o chão como um altar, 

o céu como um reflexo quintessenciado

que projeta a extensão igualitária,

entre cima e abaixo

entre as extremidades de tudo que existe.


ser plano, pleno, prumo, pluma, pena branca

pelos colorados coloridos de máculas

que arremessam as sombras frescas das árvores,

diante da minha vasta contemplação poética do Tempo-Espaço que habito,

sem nome; 

sem fundura


abandonando passivamente de novo a pressa,

e estendendo a toalha na mesa dos sonhos.

panos, panelas, família, amigos, amor, 

canela e outros aromas que esbarram fogueiras; 

declarações, livros, canções corriqueiras -


extravasamento de atma, sattva;

sacrificar o sentido de escassez


libertar o cumprimento dessa liquidez

ao escorrer

rocha abaixo,

finito.


21 de setembro de 2020


decorro de uma amplitude inconcebível, de uma liberdade intrínseca incomensurável, da experiência existencial que já dizia Mounier de n formas:

"abandonado passivamente ao fluxo do sensível",

"mais vasto que as vistas que dele tomo, mais interior que as construções que dele tento", "transcendente ao dado", "exprimido parcialmente nos índices descontínuos de expressão" ou "lançado no indizível";

só a pessoa conhece adequadamente a pessoa. me limito ao silêncio da mente ao invés de abrir o leque de definições, suposições, significações desnecessárias à harmonia unicamente presencial de cada um. 

"cada realidade exige um aparelhamento de mesmo nível e um ato de mesma ordem para tornar-se objeto de conhecimento".

30 de julho de 2020

viúvo do tempo. 
como se tivesse colhido o último ramo de flor,
e colocado sobre o berço (ou a cova)
e expremido o sumo dos sentimentos
e enfeitiçado a noite lá fora
pra ganhar um esplendor a mais...

espanejado longe -
dodecaedro
impresso
numa lasca
do infinito,

que me embrulha como um filho
dentro do útero sagrado.

nessa aldeia de lembranças
cheia de queixas&esperanças
derramo sobre o teu centro
as minhas últimas bendiciones.

21 de julho de 2020

é o colar do vazio, eu sei
os despojos do vento que carrega
o plâncton,
há milênios de espera
sortilégios de esferas quadradas.

tua forma, decaptada
como a minha
carrega tranças, traças, tramas, transas, traumas, transições.

não ousas mais as mesmas danças,
contenções;

mas foge com as harmonias inventadas
guarnecidas pela mochila.
tens o segredo na semente, o sigilo da lealdade
a tolerância deturpada do destino,
e o deserto ofuscado da esperança.

tens o dom, o gesto, a palavra, o invento - 
a sede de exuberância
e a fome da opacidade,
a ânsia na transgressão de um menino.

caminhas com o corpo ereto, o rosto lavado
a pele escorregadia de argila, 
o tronco meio achatado.

tem fome de palavra
e é consumida pela ausência;
tem desejo de sobra
e a mais poderosa e profunda paciência.

eu, tu, elos, 
somos, fomos e seremos ainda motivos de retaliação e adesão.
motivos de graça - também na desgraça
e no provérbio prematuro - na premonição
motivo de viagem, vertigem, de variação
de inconstância, preguiça e itinerância

sabe, eu sei que você não sabe que eu sinto. 
mas eu sei que você sente como eu minto. 
e omito, o que quer que seja, por não saber por onde te dizer. 
como ontem não soube como dizer à ela, a outrem, à tal, alguém.

o desejo é carnívoro, canibal, herbívoro, vegetal-selvagem. eu sou o espelho das tuas águas que se enxutam no fio-terra. eu sinto por entre o azul, o mar etéreo que se funde à tenacidade. teu gosto pelo suor. todo cambia pero nada nunca está en su lugar, de fato. eu busco pelo tato entregar respostas em variáveis. sendo unilateral esse lampejo que me abraça e me quebra. e eu, no osso, assisto o belo do encontro me apavorar de cisma. não sei bem como chegar, não sei bem como dizer. inquietação, desmotivação - você nunca segurou o meu rosto e me disse pra ficar calmo. você nunca me beijou de soslaio e nem mesmo me espiou o corpo, por debaixo da atenção. boiando no rio, queimando na grama, suando no barro. mas quem sabe me escreveu uma carta não tactíl como outras, ou como tantas que eu mesmo escrevi. quem sabe na entrega é mais fácil, e eu que tendo a ficar pra trás pelo desvio que toma o coração. quem sabe você não é mais do que eu penso, e menos do que eu sinto. quem sabe eu não inventei um desejo pra ser o mesmo que tantos; e na realidade não sei lidar com a ternura. quem sabe me lê e amanhã me beija. quem sabe meu querer lapida a consecução de uma presunção máxima, por algo que ainda não chegou a solidificar. 
quero aterrorizar esse lugar onde não consigo amar. quem sabe eu nem te aguente, nem te suporte, pois você me bagunça de um jeito. devo fazer do amor uma palavra mais solta e mirar menos nesse ideal que me fascina.

(não divido a minha solidão, mas quero dar-te aquilo que sobra como prova de que eu não sei mesmo repartir. e assim você me permite partir. e assim eu reparto o que fica com quem ainda não teve nada. e assim você me vê e sabe que eu não sou de todo luz, que não aprendi a engulir a insegurança. que só rachando a esperança consigo parir.)


minhas palavras não são mais
impulsivas
meu silêncio é credo
do fogo
que atina a verdade
ao intento da língua;
atormentar-me não seria
a convicção mais utilitária
e se fosses tu cúmplice
saberias dizer
que a paz que me invade hoje é maior que esse ou qualquer outro sentimento
e que o meu propósito tem crescido descomunalmente,
e eu preciso alinhar-me só
ao que seja provido
ou munido
da organicidade necessária.

troco o ímpeto da angústia
pelo sabor intrínseco do amarelo do sol
quando a manhã avança acima da horta e por toda aldeia
eu troco de pele inteira
e não me cobro mais o que não posso dar-me ou dar-te ou dar-lhes 

se pra isso eu preciso renascer todos os dias, queria ver se tu também renasceria
e se esquivaria do cinza
e se brotoaria nas cinzas
mas acho que eu tô aqui num paralelo
onde só me alcançam as sutilezas
dessas que muitos não enxergam
e eu estou bem com isso
não preciso que ninguém mais veja,
no fundo saúdo o sortilégio
e as maritacas gritam
nossa consciência não foi feita para pesar tanto.
nossa têmpora facilmente se cansa,
tantos pensamentos devem exortá-la.

seja portanto um veículo leve.
modifica-te, pois, o tempo inteiro
e dá-te o direito de descansar.

afasta a preguiça que te supõe o abandono.
justifica em vida quem te aprende, somente,
e continuamente...

aguarda humildemente o futuro, dentro do presente.
para trás sempre ficam oceanos inteiros.
ondas fortes que se alastraram, e por vezes derrubaram coisas pelo caminho;

afasta-te do retrocesso e condena os que te culparam com a justiça explícita do perdão.
admites que também navegastes sem direção.
assimila o movimento das ondas às emoções.

rodopiastes bandas e bandas em muitas alegrias e outras línguas;
e assim foram-se anos...

mas tu não via a vida com tanta valia, por isso não sabia de onde vinha a dor.
e aquele perfil de quem pontualmente se ausentava de si para perseguir sonhos impalpáveis?!

um santuário vivo - jovem, mundano e empírico.
se não adoecestes do mundo ilegível, agradece.
levanta e assopra a dor que te amortece das investidas do tempo.