26 de junho de 2019



ser trans é subir subir subir e despovoar o infinito que andava escondido sob o véu de nuvens
dado como breu vazio ou inalcansável na travessia nebulosa ou preguiçosa do homem como conivente, não sendo autor e projetor de novas caminhadas
e difusor de ritmos e construtor de túneis
o não reconhecimento é a base pra uma obra que vem do vazio mais autêntico
do tronco que foi cortado e mantiveram em cativeiro com sua raiz apertada
exposta ao sol e a chuva
ao risco de cair do barranco
nasce uma vontade sufocante de gritar e de renascer
uma vontade sufocante de brilhar e de rasgar-se de novo
de sangrar até morrer quantas vezes for preciso
pra que da morte dê seguimento uma nova vida e uma nova fala
pra que do aperto da mordaça surja a veemência da palavra latejante
a palavra cósmica e cintilante
que se tinja de vinho a tela branca e de negra a grama verde
pra que meus troncos sejam fortes eu necessito ser decaptada
me fizeram
e eu entendi que da revolta se nasce um gosto depravado de sorrir
de debochar e passar vexame
de ser ferida aberta e exposta pra provocar no rubro dos rostos a interrogação e o remorso
pra lhes fazerem pensar até onde seus punhos ainda não se afirmam
pra que desabem dentro de suas jaulas e também morram no sufoco da irrealidade despercebida