19 de março de 2018

do meu peito eu tiro o amor pela flor
que prenuncia o período chuvoso e anuncia 
o seu próprio sucumbir de novo, pela haste altiva
que muito ganhava mas algo sempre perdia
pro despertar da vida que dela cobrava apenas
a simplicidade.

despejar os fatos exactos da vida nunca fora tão difícil
e ao mesmo tempo,
fácil e factual
como algo banal do dia-a-dia...
pousar palavras como flores no papel a 4, e desdobrar idéias honrosas,
paulatinamente,
fazendo do diário um céu de utilidades, pra grande mãe
abençoar e agradecer, eis o meu papel...

plantar no céu flores, e colher na terra verbos
pra isso acontecer, basta confiar que os verbos, à partir do então,
serão flores,
e estas semeadas, desabrocharão nas mãos dos que necessitam cultivá-las.

como se deu, de um tempo pra cá, essa complexa girada?
essa completa reviravolta, e reinício de jornada?
eu me lembro...
de nada, além do aqui-agora. estar sentada, encostada na parede
com um pouco dos sonhos da noite e um pouco de verde na cabeça.


ainda o que sou jaz em quem eu era, e vice versa
não me preocupo em explicar-me n'outras vidas
há questões mais urgentes nesta, para acertar.
sou eu quem coloca as cartas na mesa? qual então, seria
o posicionamento destas cartas?
existem ordem, cores, inversões ou karmas?
algo específico para eu saber antes de começar
a embaralhar
e dar
os dharmas
pras pessoas acossadas
de serem suspeitas dessa minusciosa
colheita?

quem colherá as flores que plantarei... nos trilhos
bairros
pastagens
exílios
serras
pousadas
beiras de rio e quadras
asa norte e asa sul
ventos que me levarão sempre, curiosa
até os ensinamentos sutis da vida.

quem sou eu que se recusa, às vezes
a atiçar a criatividade e a experiências
quando coloco os dedos sobre o queixo ou a mão inteira
sobre a cara e exprimo um cansaço ralo,
sem relevo,
sem formato.
cansaço de pedra, de nada,
porque a vida segue e a alma segue também exalando o
perfume das senzalas
das favelas
das queimadas
derrocadas
derrubadas
e destrutivas
das secagens
dos pastios
eu estou muito, muito sensível a estes ataques à fauna e à flora.
não sei como dizer ao povo que a vida é oprimida,
desprezada e refutada a cada dia
e que os olhos estão voltados pro ego
e a fonte de tudo se encolhe, estica. rompe e se interrompe.
e se machuca?!
não, eu não sei como nunca, nunca
pude expressá-la. somente represá-la. 
se a natureza é a minha vida, se a minha vida é cuidá-la.
por que o mesmo karma não se aplica a todos?
se a fonte é a mesma
se é a mesma energia
do alimento
do cozimento
da respiração
do condicionamento?
aos poucos desengato na coragem de serví-la.

como poderei fazer da melhor forma?
eu não me preocupo mais em ser-humano-perfeito
isso não existe, dentro da imperfeição perfeita da vida.
talvez esteja me encantando mais por coisas danificadas.
este é um momento em que sou atingida pelos danos externos e internos.
eles já não interrompem a minha famosa alegria,
mas fazem parte do meu dia nas notificações e nos noticiários da vida
nos reclames do povo já racionando água há 15 dias
mas não racionalizando o problema a fundo pra chegar no emblema óbvio
dos problemas do mundo?!

tudo é ambiental e tudo poderia ser abreviado em zelo pela natureza
mas em lugar disso temos
há tempos
temers
semeando
e sêmens
de anseios e mazelas
demasiadas
obras fúteis e pródigas
de servidores e servidoras
procrastinadoras, como eu...
sinto em me afirmar, há tempos
tentando encontrar alguma fórmula específica
de simplesmente
falar
alguma coisa só um grãozinho de palavra
verdadeira plantada
e a verdade sempre vindo derradeira, o que pra mim
parecia demais
era, na verdade, 
a germinação desse mandacaru.
o prenúncio de épocas chuvosas, tempestivas;
no bom sentido da palavra.
a flor tentando, à todo custo, se pôr pra fora
mas respeitando, no fim das contas, o período de seca.
incapaz de conter-se, mas 
sem poder fazer algo a mais para mudar.

aproveito o desabrochar da flor para falar
nada mais do que: respeite a natureza.

ame
estude
vibre
abrace
e exprima
a fonte de tudo.