3 de maio de 2019

por onde ficou você?
que não está escondida na gaveta
que não se trancou sobre o meu dedo
que não sangrou, que não estancou
e nem alarmou direito
um grito, esperado
diante do silêncio furtivo da dor

por onde você desapareceu, que nem rastro seu
ficou?
me resta apenas um vazio
sem escombro, sem perfídios
sem malícia, sem letícias
sem faróis, sem guerras
sem rombos, sem tréguas
sem mágoas sobre o que não sabemos e nem
remorsos sobre o que não sonhamos

será que de onde está
sente arder o que não resta?
como alguma fresta
que nos incutiu
o espaço conhecido
de intimidades
trazendo algo inesperado,
vento, fados, tragos
de cigarros
enquanto resmungo e testemunho
pontífices
ou fatos apenas se interligando
aos detalhes dos nossos passados
origens
e juncções

você sente falta da ausência, como eu?
falta de dizer a falta que tinha de dizer
a falta que tinha, quando junto se estava
e já começava a se esquecer
a falta que tinha de se estar inteiro
ou quando se estava inteiro e sentia que algo faltava
falta de paciência
quando não se podia esperar por algo que já não nos aprazava

pois se faltava algo, devia ser
a ideia da falta
e não a falta de fato
do trato que já se tinha
e talvez não fosse muito omisso
mas já se via de nós ocultar,
diante disso
que a gente via por aí faltar
e as vezes se perguntava se tinha!
afinal, tu sumiu assim
pra marcar presença sobre o que não há
foi por ver faltar
ou por viver sobrando?