28 de novembro de 2018

não me injetastes o sonho da ternura
para que eu vivesse com as mãos no lugar dos pés,
e a lua pendurada no pescoço.
para que não me escorregassem distintos e tintos ânimos,
ao passear de guarda-chuvas
ou dormir na ventilação de uma rua abandonada.

não me ensinastes o caminho, para que eu morresse tantas vezes quanto necessário
muito mais do que vivesse uma afirmação pesada,
difícil de carregar
ou me firmasse em ser a otimista em meio a tanta
desordem e miscelânea de emoções.

não me acostumastes à cura, para que eu sofresse
da ausência de mim, posto que
intercederia apenas no caso mais urgente
pois me inteirastes das mais capazes ferramentas,
e me mostrastes sempre como alavancar sozinho das tristezas.

mas muito eu soube de mim e tão pouco do outro,
que o mar, morto, amei
quando encontrei felicidade para além
e não me importei que minhas águas se sujassem,
ou com as tempestades que viriam,
e muito ocupado, esqueci como cuidar-me.

e agora, peço-te perdão! ao outro, a mim, se não
soube fazer tudo como instruistes.
e ponho a te perguntar, se o que queres me ensinar
agora é diferente, menos egoísta e,
mais congruente com a forma do mundo a que me unificastes

e se pela cor vinha do mar, que tomei e me tornei
de entrega e de vazio, de ardor e morte
o que sinto, há de se converter em boa sorte?
me farás rio outra vez, e me reintegrará perante a minha nudez marítma
para vencer esse desafio?